domingo, 4 de março de 2012

o caminho das várzeas


Camariñas by Luar na Lubre on Grooveshark


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Era muito bonita esta Aida do Moinho e não era portanto de admirar o constante correrio da vasta variedade de marmanjos em idade de líbido crescente pelo caminho das várzeas. O facto de terminar em pleno moinho do velho Abel e, por isso, não permitir justificações de passagem aleatória e desinteressada, jamais viria a inibir alguém. Além do mais, a natural beleza do local assente em elevadíssima riqueza bucólica sempre foi mais que suficiente para levar famílias inteiras  munidas da cesta do merendelo ou tocadores de concertina nos domingos à tarde. Ali se juntavam cantando, dançando, namoriscando, refrescando os pés no leito do rio que corria molengão ou refastelando-se à sombra depois de mamado o farnel, roendo uma meticulosamente escolhida palha de feno no espaço confinado ao alcance de um braço. Mas isso era aos domingos… Por aquela altura, a presença de Aida era o motivo da passagem, e era fenómeno diário.
Obviamente, Aida sentia-se lisonjeada por tamanha atenção. Nunca foi de alimentar ideias em cabeça alheia por iniciativa própria, era ainda muito nova, mas sabia muito bem ao que vinham todos aqueles rapazes, era por sí, e sabia também que a sua simples presença na romaria de São Sebastião era o suficiente para que uns quantos se informassem junto de outros tantos acerca da identidade daquela jovem menina, formosa, de peito farto.
Disso gostava mas a todos ignorava a pequena Aida. Não os enxotando (gostava de se sentir desejada, ela que era pobre, ao contrário de outras que fidalgas haviam nascido), foi sempre desenvolvendo e aplicando a arte de inibir investidas mais ousadas ou ambiciosas, e tão habilmente o fazia que nunca ninguém ouviu falar da revolta de algum. A pequena sabia cativar amizades e os marmanjos, apercebendo-se da fatal situação de incapacidade para conquistar corpo ou alma, ficavam-se pela amizade empenhando-se, todos sem exceção, na explicação de que, desde o início, jamais lhes havia passado pela cabeça a intenção de posse ou paixão. A verdade é que começavam por rarear as visitas e se dedicavam, a partir dali, à procura de novo alvo dos seus impetuosos disparos de líbido e romance, fosse em São Julião ou nas freguesias vizinhas.
Havia porém – tinha de haver – um moço que lograva convencer os sentimentos de Aida. Tal como num romance deve ser, era ele o que menos se expressava. O João Grande, rapaz que também por alí passava mas que jamais havia investido olhares ou palavras de apreço sobre a bela rapariga. João Grande era filhos de lavradores e donos da maior parte dos terrenos na várzea. Todos os dias por alí passava o Jovem sempre empunhando qualquer ferramenta de trabalho. Da simples enxada à complexa parelha dos bois galegos que puxavam o carro, nunca João por ali passava sem que fosse a trabalho mas sempre Aida saía ao quintal para o ver passar. O simples e respeitoso cumprimento que o rapaz lhe endereçava chegava para alegrar o dia da pequena. Era ele o seu Amor! 
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José Eduardo, in: não publicado, ainda!
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2 comentários:

Hugo disse...

fiquei com vontade de ler mais .

Campos disse...

Um excerto bastante prometedor e extremamente cativante, com toques mordazes e críticos de uma sociedade rural apagada pelo tempo… Continua essa grande obra, terei imenso gosto em lê-la …


(Campos)